
Eram 05:29 da manhã no deserto do Jornada del Muerto, Novo México. O silêncio da pré-alvorada não foi quebrado por um som, mas por uma luz. Um clarão roxo e verde, tão intenso que iluminou as montanhas ao redor como se fosse meio-dia, seguido por um estrondo que sacudiu a terra.
Naquele instante, em 16 de julho de 1945, a humanidade deixou de ser apenas habitante da Terra e passou a ter o poder de destruí-la.
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Observando de um bunker a quilômetros de distância, um homem magro, com o rosto cavado pelo estresse e pelo tabaco, não celebrou. J. Robert Oppenheimer apenas pensou em uma linha antiga de uma escritura hindu: "Agora eu me tornei a Morte, o destruidor de mundos."
Mas como chegamos até ali? E, mais importante, como o homem que deu aos Estados Unidos a arma definitiva acabou sendo destruído pelo próprio país que jurou proteger? Essa é a história do Projeto Manhattan, não apenas como um feito científico, mas como uma tragédia humana.
O Medo é o melhor combustível
Para entender por que mentes brilhantes concordaram em criar uma arma de genocídio, você precisa olhar para o calendário: era 1939. O mundo estava à beira do abismo.
A Alemanha Nazista não tinha apenas soldados; tinha a ciência. Físicos alemães haviam acabado de descobrir a fissão nuclear. A ideia de que Hitler poderia ter uma bomba atômica antes dos Aliados não era apenas um pesadelo, era uma possibilidade estatística real.
Foi o medo que fez Albert Einstein, um pacifista convicto, assinar a famosa carta ao presidente Roosevelt avisando: "olha, isso é possível, e se eles fizerem primeiro, acabou".
O governo americano demorou a engrenar. Mas depois de Pearl Harbor, em 1941, o cheque em branco foi assinado. Nascia o Projeto Manhattan. O objetivo era simples e aterrorizante: correr contra o tempo para construir a bomba antes que a Alemanha o fizesse.
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Los Alamos: Uma cidade secreta no meio do nada

O general Leslie Groves, o militar encarregado da operação, precisava de um líder científico. Pelas regras militares, Oppenheimer era a pior escolha possível. Ele era um teórico, não um administrador. Era arrogante, mulherengo e tinha flertado com o comunismo nos anos 30 — o que o FBI já sabia e vigiava de perto.
Mas Groves viu algo que ninguém mais viu: uma "ambição excessiva". Oppenheimer queria deixar sua marca.
Eles escolheram Los Alamos, um local isolado no Novo México que Oppenheimer conhecia da juventude. Do nada, construíram uma cidade secreta. Foi o maior empreendimento científico da história. Imagine pegar os maiores gênios do mundo — nomes como Enrico Fermi, Richard Feynman, Niels Bohr — e trancá-los em barracões de madeira no meio do deserto, cercados por arame farpado e lama, trabalhando 18 horas por dia.
A pressão era insana. Eles não estavam apenas construindo uma máquina; estavam inventando uma física nova enquanto trabalhavam. Precisavam descobrir como fazer o urânio ou o plutônio explodirem na hora certa, e não na cara deles. Gastaram 2 bilhões de dólares da época (uma fortuna incalculável hoje) sem garantia nenhuma de que funcionaria.
O "Gadget" e o fim da inocência
Quando a Alemanha se rendeu em maio de 1945, muitos cientistas pararam para pensar: "Espera, se os nazistas caíram, por que continuamos?"
A motivação original tinha desaparecido. Mas a máquina de guerra já estava grande demais para parar. O foco mudou para o Japão. Oppenheimer, que sabia ser persuasivo, convenceu a equipe de que a bomba era necessária não só para acabar com a guerra, mas para torná-la tão horrível que a humanidade nunca mais ousaria lutar. Uma lógica torta, mas que manteve todos trabalhando.
Veio o teste Trinity. Funcionou. A torre de aço onde a bomba estava pendurada simplesmente evaporou. A areia do deserto derreteu e virou vidro verde radioativo.
Menos de um mês depois, a teoria virou massacre. Hiroshima e Nagasaki foram obliteradas. Não foram alvos militares cirúrgicos; foram cidades inteiras varridas do mapa em segundos. As sombras das vítimas ficaram impressas no asfalto.
A guerra acabou. O Japão se rendeu. Oppenheimer era o herói nacional, o "Pai da Bomba Atômica". Seu rosto estava na capa da revista Time. Mas por dentro, ele estava começando a desmoronar.
Sangue nas mãos
Existe uma anedota famosa de uma visita de Oppenheimer ao Salão Oval para ver o presidente Harry Truman pós-guerra. Oppenheimer, visivelmente abalado, disse: "Senhor Presidente, sinto que tenho sangue nas minhas mãos".
Truman, um político pragmático que não tinha paciência para o peso na consciência dos intelectuais, ofereceu-lhe um lenço e disse: "Pois bem, gostaria que não lavasse". Depois que Oppenheimer saiu, Truman disse a um assessor: "Não deixe aquele bebê chorão entrar aqui de novo".
Essa foi a ruptura. Oppenheimer passou o resto da vida tentando colocar o gênio de volta na lâmpada. Ele usou sua fama para advogar pelo controle internacional de armas nucleares. Ele dizia abertamente: "Nós fizemos o trabalho do Diabo".
Quando a União Soviética detonou sua própria bomba em 1949, o pânico voltou aos EUA. A resposta americana foi querer criar a "Superbomba" — a bomba de hidrogênio, mil vezes mais forte que a de Hiroshima.
Oppenheimer disse não. Ele argumentou que aquela arma não tinha utilidade militar; era apenas uma ferramenta de genocídio. Ele bateu de frente com figuras poderosas, incluindo Lewis Strauss, chefe da Comissão de Energia Atômica, e Edward Teller, um físico que era obcecado pela Bomba H.
Ao se posicionar contra a corrida armamentista, Oppenheimer fez inimigos que não perdoavam.
O Julgamento de Cartas Marcadas
Em 1954, no auge da histeria anticomunista do Macartismo, os inimigos de Oppenheimer viram a chance perfeita. Eles não podiam prendê-lo, então decidiram destruí-lo.
Foi montada uma audiência de segurança para renovar as credenciais dele. Mas não foi um julgamento justo; foi uma emboscada. O FBI grampeou os telefones dele (ilegalmente). A promotoria tinha acesso a documentos que os advogados de defesa de Oppenheimer não podiam ver.
Reviraram a vida dele do avesso. Seus antigos namoros com comunistas, as doações para a esquerda espanhola, os casos extraconjugais, a instabilidade emocional. Tudo foi jogado na cara dele em uma sala fechada, dia após dia, para humilhá-lo.
No final, a comissão decidiu: Oppenheimer era um cidadão leal, mas tinha "defeitos de caráter". Revogaram sua credencial de segurança.
Pode parecer pouco, perder um crachá. Mas, no mundo da ciência da Guerra Fria, isso era a morte civil. Oppenheimer foi exilado da comunidade que ele mesmo ajudou a criar. O governo americano basicamente disse ao mundo: "Não confiamos mais neste homem".
O Legado
J. Robert Oppenheimer nunca se recuperou totalmente. Ele se retirou para Princeton, um homem envelhecido antes do tempo, cercado de livros e melancolia. Ele morreu em 1967, de câncer na garganta, consequência de fumar feito uma chaminé a vida toda.
O Projeto Manhattan foi o maior triunfo científico da nossa era, mas também o nosso pecado original. Oppenheimer foi o nosso Prometeu moderno: roubou o fogo dos deuses para dar aos homens, e foi acorrentado a uma rocha para ser torturado por isso.
Hoje, vivemos no mundo que ele construiu. A "Paz Nuclear" durou até agora, mas o preço foi vivermos permanentemente sob a sombra da aniquilação. Como ele mesmo alertou anos antes de morrer: "Os físicos conheceram o pecado; e esse é um conhecimento que eles não podem perder."
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